O Bonde das Coisas Esquecidas
Uma viagem curtinha pelo fim da tarde
Ritmo da leitura
Escolha o tamanho ideal para esta noite
Se a criança já está quase dormindo, comece pela versão curta. Se ainda há tempo, siga para a leitura completa.
O fim da tarde chegou devagar, como chega quem não tem pressa. A rua ficou cor de mel. As telhas ficaram cor de mel. Até o rabo do cachorro da esquina ficou cor de mel.
Inês estava no portão com os bolsos cheios: uma tampinha, dois botões, um pedacinho de giz. Inês tinha cinco anos e bolsos que nunca ficavam vazios.
Foi então que ela escutou.
Tlim-tlim.
Na esquina apareceu um bonde azul, pequenininho, do tamanho exato de Inês. As rodas faziam tuc-tuc num trilho que ninguém nunca tinha visto ali. Na frente, num banquinho alto, ia um quati de boné azul.
— Boa tarde — disse ele. — Você é a menina dos bolsos cheios? Meu nome é Seu Quim. Conduzo o bonde das coisas esquecidas.
— Coisas esquecidas?

— O dia inteiro as pessoas esquecem coisinhas por aí. Eu recolho e devolvo. Só tem uma regra: tudo precisa voltar pro dono antes de acender a primeira estrela.
Inês olhou o céu, ainda dourado com uma beiradinha de rosa.
— Eu posso ajudar?
Seu Quim tirou de uma caixinha um sininho de latão do tamanho de uma amora.
— Ajudante precisa de sininho. Toca quando o bonde vai parar.
O degrau fez cóc. O banco fez cric. Dentro, os bancos estavam cheios: um chapéu de palha de aba torta, uma meia listrada sozinha, um assovio de lata amassado, uma bolinha de gude azul rolando de um lado pro outro. E, no banco do fundo, uma estrelinha de papel dobrado.
A primeira parada foi a padaria. Tlim-tlim. Dona Lurdes apareceu com as mãos brancas de farinha.
— Ai, meu chapéu! Passei a tarde achando que tinha perdido a cabeça junto.

Ela encaixou o chapéu torto do jeito certo e voltou com um pãozinho quente embrulhado em papel. O cheiro entrou no bonde e decidiu ficar.
A segunda parada foi o beco do varal. Lá em cima, uma meia listrada balançava sozinha, esperando a irmã. Seu Quim esticou o braço comprido e prendeu a outra no prego do lado. As duas ficaram se mexendo com o vento, como quem dá tchau.
A terceira parada foi o coreto. Chico, o gato de orelha dobrada, se espreguiçou todo quando viu o assovio de lata. Soprou e saiu um assobio torto, meio de panela, meio de passarinho gripado. Inês riu segurando a barriga.
Na quarta parada, o céu já escurecia nas beiradas. Um menino andava de cabeça baixa, procurando, procurando.
— Tobias — sussurrou Seu Quim. — Perdeu a preferida.
Inês soltou a bolinha de gude azul no chão de pedra. Ela rolou reto, deu uma curvinha e parou bem no pé do menino. Tobias abriu a mão, fechou a mão e saiu correndo pra casa.
Nesse instante, lá no alto, piscou a primeira estrela.
— Deu o horário — disse Seu Quim.

Mas ainda havia a estrelinha de papel. Inês olhou as dobras: uma ponta torta, uma dobra feita duas vezes no mesmo lugar.
— É minha. Caiu embaixo da cama e eu esqueci.
Seu Quim entregou a estrelinha e só sorriu com o bigode.
O bonde seguiu manso pela rua azul, com as janelas acendendo amarelas, e parou no portão de Inês.
— Amanhã eu ajudo de novo?
— Sempre tem coisa esquecida — disse ele. — Sempre, sempre.
Depois do banho, a estrelinha ficou na mesinha. Os dedos de Inês ainda cheiravam a pão quente. Lá longe, um tlim-tlim.
Ela foi contando as paradas: a padaria, o varal, o coreto, a praça. Na quinta, que era a casa dela, já estava dormindo.
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